Quem não tem coração e atitude de ovelha, não serve para ser pastor. A autoridade provém da submissão e o governo é legitimado pelo serviço.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Pautas Ético-Pastorais

Compartilho algumas de minhas anotações da Pós-Graduação em Aconselhamento pastoral, na disciplina do Prof. Dr. Ronaldo Sathler-Rosa que são muito boas para o entendimento da questão. Estas pautas não estão fechadas, pois a vida tem muito a nos ensinar...

PAUTAS ÉTICO-PASTORAIS, EM ELABORAÇÃO, PARA O PROCESSO DE ACONSELHAMENTO

Prof. Ronaldo Sathler-Rosa.

As anotações que se seguem são incompletas. Devem ser ampliadas à medida que as circunstâncias o exijam. Mais importante: não se pode “prescrever” comportamentos. Atitudes, comportamentos, ações correspondem ao caráter da pessoa. “Nosso ser (como somos) precede e determina o nosso fazer (como agimos)”. Entretanto, a reflexão ética tem um caráter educativo, pois sempre é possível o aperfeiçoamento da personalidade, de suas intenções e motivações. Pautas éticas representam parâmetros de conduta pastoral exigidos de pessoas que se dispõem a ajudar os seres humanos em suas dificuldades, em seus dilemas, suas indagações existenciais e que depositam sua confiança em seus pastores e pastoras..


Conselheiros(as) e o contexto sócio-econômico e político
Gerald Corey (1982):
“...muitas entidades profissionais dão ênfase às responsabilidades éticas de suas categorias em relação à sociedade como um todo no sentido de que exerçam influência, coletivamente, contra situações tais como a opressão e a discriminação da mulher e grupos minoritários, a continuação do racismo na sociedade, a negligência em relação aos idosos e práticas desumanas contra crianças (...) Existe uma tendência generalizada no sentido de encorajar tais categorias a, de forma ativa, utilizar seus conhecimentos e habilidades” para denunciar as causas geradores da assimetria social.

Ao referir-se a conselheiros e terapeutas, Corey salienta que é seu dever conhecer as condições econômicas, políticas e sociais que afetam o direito humano à saúde, casa, trabalho, lazer, alimentação. Corey vai mais longe ao dizer que é necessário que conselheiros(as) determinem que passos tomar no sentido de contribuir para as necessárias transformações no sistema global da sociedade. Dessa forma, conselheiros(as) em geral estão descobrindo que para que ocorram mudanças individuais significativas é impossível permanecer cego e mudo diante dos males sociais que criam e alimentam doenças individuais; i.e., mudanças individuais radicais só podem ocorrer com mudanças nos ordenamentos e relacionamentos sociais; assim, os(as) conselheiros(as) devem ser “agentes de mudança social” para que a vida em plenitude se manifeste. Esta é, a meu ver, o maior desafio ético de pastores e pastoras conselheiros(as) que atuam em países empobrecidos.


Pautas essenciais
Em forma esquemática submeto algumas (os/as participantes são encorajados/as a acrescentarem outras) pautas éticas que devem nortear nossa atividade como pastores e pastoras conselheiros(as):
1. devemos ter consciência de nossas próprias necessidades e se nossas carências influenciam nosso trabalho e a pessoa que nos procura;

2. uma vez que nosso compromisso pastoral é com o bem-estar daquelas pessoas a quem servimos é fundamental que não utilizemos os que nos procuram para satisfazer nossas próprias necessidades;

3. precisamos evitar qualquer tipo de relacionamento que possa ser uma ameaça ao processo;

4. devemos evitar qualquer manifestação, oculta ou em público, que indique interesse sexual, bem como gestos ou palavras sedutoras e contatos físicos que caracterizem abuso;

5. o “segredo do confessionário” deve ser nosso ponto de honra. Se houver alguma circunstância que possa afetar a confiabilidade implícita no processo de aconselhamento pastoral devemos informar à pessoa a quem estamos acompanhando; em caso de risco de vida os familiares devem ser informados após o seu consentimento. (A questão da confidencialidade passa, antes de tudo, por um auto-exame: “estou, realmente, motivado a ser ponto de apoio e ajuda? Ou estou interessado em bisbilhotar a vida alheia e tripudiar sobre as fraquezas de outras pessoas?” São questões a serem examinadas, auto-investigadas. Honrar a confiabilidade requer auto-determinação, maturidade pessoal e vocacional e o aprendizado paciente da auto-disciplina);

6. precisamos de formação adequada a fim de conhecer a condição humana e os problemas apresentados para reagir de forma útil e não impositiva;

7. é nosso dever nos dedicarmos ao estudo contínuo, em especial das disciplinas que pesquisam o ser humano e suas interações. A participação regular em cursos de atualização, congressos, seminários e atividades afins é altamente recomendável;

8. é nosso dever informar claramente o significado do processo de aconselhamento pastoral. Além disso, informações “operacionais”, tais como, duração, número de vezes, horário etc. são, também, importantes. É fundamental deixar claro que não sabemos qual será o resultado final do processo;

9. devemos ter consciência dos limites de nossa competência. A consulta a colegas, ou mesmo a outros profissionais, é recomendável, preservando-se, sempre, a identidade de quem procurou ajuda;

10. a supervisão regular é requisito essencial para assegurar-se a qualidade e eficiência do acompanhamento;

11. embora devamos ter consciência de princípios éticos elementares é importante reconhecermos que podemos nos defrontar com situações específicas em que teremos de usar nossa própria capacidade de discernimento e bom senso. Podemos não encontrar caminhos claros em determinadas circunstâncias. Temos que aceitar a responsabilidade de buscar aquelas “respostas”, juntamente com a pessoa que nos procurou, que sejam as mais adequadas para o momento;

12. temos que reconhecer a natureza complexa da personalidade humana e as dificuldades próprias de mudanças de atitudes e de comportamentos;

13. devemos assumir que nossa fé e compromisso cristão cria e sustenta nosso sistema de valores e atitudes. Este pressuposto irá influenciar nosso relacionamento pastoral. Entretanto, jamais podemos impor, no caso de pessoas não pertencentes à comunidade da igreja, de forma sutil ou ostensiva, nossa crença;

14. devemos lembrar que nossas atitudes falam mais do que nossas palavras. Queiramos ou não, quem nos procura nos vê, de alguma forma, como pessoas que exercem alguma influência sobre suas vidas. Dessa forma, o que encorajamos em nossos eclesianos deve ser vivido por nós;

15. é nosso dever intervir em casos em que há evidências de abusos contra crianças, mulheres, idosos, deficientes ou outras pessoas cujas condições não lhes permitam proteger-se adequadamente;

16. é inerente à nossa vocação servir a qualquer pessoa, independentemente de sua condição econômica, religiosa, étnica, de gênero e de orientação sexual.


Recursos bibliográficos
CIAN, Luciano. Caminho para a maturidade e a harmonia. Reflexão sobre a experiência de um itinerário de acompanhamento formativo individual. Pistas para realizar a “vida plena”. Petrópolis: Vozes, 1990.

COREY, G. Theory and Practice of Counseling and Psychotherapy. 2. ed. Monterey: Brooks, 1982.

GULA, Richard M. Ética no ministério pastoral. São Paulo: Loyola, 2001.

KESSLER, Nemuel. Ética pastoral: O comportamento do pastor diante de Deus e da sociedade. 6. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2000.

LEON, Jorge. Introdução à psicologia pastoral. São Leopoldo: Sinodal, 1996.

REGA, Lourenço Stelio. A ética temporal ascendente como alternativa à ética do “jeitinho”. Simpósio, vol. 8 (2), ano XXVIII, n. 38, ASTE, 1995.

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