Quem não tem coração e atitude de ovelha, não serve para ser pastor. A autoridade provém da submissão e o governo é legitimado pelo serviço.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A fome da Marina

Achei esse texto muito bom para refletirmos. Apesar de não gostar da música e poesia nem de Caetano e muito menos de Rita, acho que o conteúdo é para se pensar sim...
Pr. Kleyson Fleury.


Por José Ribamar Bessa Freire(Professor, coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ) e pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO)

Há pouco, Caetano Veloso descartou do seu horizonte eleitoral o presidente Lula da Silva, justificando: "Lula é analfabeto". Por isso, o cantor baiano aderiu à candidatura da senadora Marina da Silva , que tem diploma universitário. Agora, vem a roqueira Rita Lee dizendo que nem assim vota em Marina para presidente, "porque ela tem cara de quem está com fome".
 
Os Silva não têm saída: se correr o Caetano pega, se ficar a Rita come.
 
Tais declarações são espantosas, porque foram feitas não por pistoleiros truculentos, mas por dois artistas refinados, sensíveis e contestadores, cujas músicas nos embalam e nos ajudam a compreender a
aventura da existência humana. 
 
Num país dominado durante cinco séculos por bacharéis cevados, roliços e enxudiosos, eles naturalizaram o canudo de papel e a banha como requisitos indispensáveis ao exercício de governar, para o qual os Silva, por serem iletrados e subnutridos, estariam despreparados.
 
Caetano Veloso e Rita Lee foram levianos, deselegantes e preconceituosos. Ofenderam o povo brasileiro, que abriga, afinal, uma multidão de silvas famélicos e desescolarizados.
 
De um lado, reforçam a ideia burra e cartorial de que o saber só existe se for sacramentado pela escola e que tal saber é condição sine qua non para o exercício do poder. De outro, pecam querendo nos fazer acreditar que quem está com fome carece de qualidades para o exercício da representação política.
 
A rainha do rock, debochada, irreverente e crítica, a quem todos admiramos, dessa vez pisou na bola. Feio."Venenosa! Êh êh êh êh êh!/ Erva venenosa, êh êh êh êh êh!/ É pior do que cobra cascavel/ O seu veneno é cruel.../ Deus do céu!/ Como ela é maldosa!".
 
Nenhum dos dois - nem Caetano, nem Rita - têm tutano para entender esse Brasil profundo que os silvas representam.
 
A senadora Marina da Silva tem mesmo cara de quem está com fome? Ou se trata de um preconceito da roqueira, que só vê desnutrição ali onde nós vemos uma beleza frágil e sofrida de Frida Kahlo, com seu cabelo amarrado em um coque, seus vestidos longos e seu inevitável xale? Talvez Rita Lee tenha razão em ver fome na cara de Marina, mas se trata de uma fome plural, cuja geografia precisa ser delineada. Se for fome, é fome de quê?
 
O mapa da fome
A primeira fome de Marina é, efetivamente, fome de comida, fome que roeu sua infância de menina seringueira, quando comeu a macaxeira que o capiroto ralou. Traz em seu rosto as marcas da pobreza, de uma fome crônica que nasceu com ela na colocação de Breu Velho, dentro do Seringal Bagaço, no Acre.
 
Órfã da mãe ainda menina, acordava de madrugada, andava quilômetros para cortar seringa, fazia roça, remava, carregava água, pescava e até caçava. Três de seus irmãos não aguentaram e acabaram aumentando o alto índice de mortalidade infantil.
 
Com seus 53 quilos atuais, a segunda fome de Marina é dos alimentos que, mesmo agora, com salário de senadora, não pode usufruir: carne vermelha, frutos do mar, lactose, condimentos e uma longa lista de uma rigorosa dieta prescrita pelos médicos, em razão de doenças contraídas quando cortava seringa no meio da floresta. Aos seis anos, ela teve o sangue contaminado por mercúrio. Contraiu cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose.
 
A fome de conhecimentos é a terceira fome de Marina. Não havia escolas no seringal. Ela adquiriu os saberes da floresta através da experiência e do mundo mágico da oralidade. Quando contraiu hepatite, aos 16 anos, foi para a cidade em busca de tratamento médico e aí mitigou o apetite por novos saberes nas aulas do Mobral e no curso de Educação Integrada, onde aprendeu a ler e escrever.
 
Fez os supletivos de 1º e 2º graus e depois o vestibular para o Curso de História da Universidade Federal do Acre, trabalhando como empregada doméstica, lavando roupa, cozinhando, faxinando. 
 
Fome e sede de justiça: essa é sua quarta fome. Para saciá-la, militou nas Comunidades Eclesiais de Base, na associação de moradores de seu bairro, no movimento estudantil e sindical. Junto com Chico Mendes, fundou a CUT no Acre e depois ajudou a construir o PT.
 
Exerceu dois mandatos de vereadora em Rio Branco , quando devolveu o dinheiro das mordomias legais, mas escandalosas, forçando os demais vereadores a fazerem o mesmo. Elegeu-se deputada estadual e depois senadora, também por dois mandatos, defendendo os índios, os trabalhadores rurais e os povos da floresta.
 
Quem viveu da floresta, não quer que a floresta morra. A cidadania ambiental faz parte da sua quinta fome. Ministra do Meio Ambiente, ela criou o Serviço Florestal Brasileiro e o Fundo de Desenvolvimento para gerir as florestas e estimular o manejo florestal.
 
Combateu, através do Ibama, as atividades predatórias. Reduziu, em três anos, o desmatamento da Amazônia de 57%, com a apreensão de um milhão de metros cúbicos de madeira, prisão de mais 700 criminosos ambientais, desmonte de mais de 1,5 mil empresas ilegais e inibição de 37 mil propriedades de grilagem.
 
Tudo vira bosta
 
Esse é o retrato das fomes de Marina da Silva que - na voz de Rita Lee - a descredencia para o exercício da presidência da República porque, no frigir dos ovos, "o ovo frito, o caviar e o cozido/ a buchada e o cabrito/ o cinzento e o colorido/ a ditadura e o oprimido/ o prometido e não cumprido/ e o programa do partido: tudo vira bosta".
 
Lendo a declaração da roqueira, é o caso de devolver-lhe a letra de outra música - 'Se Manca' - dizendo a ela: "Nem sou Lacan/ pra te botar no divã/ e ouvir sua merda/ Se manca, neném!/ Gente mala a gente trata com desdém/ Se manca, neném/ Não vem se achando bacana/ você é babaca".
 
Rita Lee é babaca? Claro que não, mas certamente cometeu uma babaquice. Numa de suas músicas - 'Você vem' - ela faz autocrítica antecipada, confessando: "Não entendo de política/ Juro que o Brasil não é mais chanchada/ Você vem... e faz piada". Como ela é mutante, esperamos que faça um gesto grandioso, um pedido de desculpas dirigido ao povo brasileiro, cantando: "Desculpe o auê/ Eu não queria magoar você".
 
A mesma bala do preconceito disparada contra Marina atingiu também a ministra Dilma Rousseff, em quem Rita Lee também não vota porque, "ela tem cara de professora de matemática e mete medo". Ah, Rita Lee conseguiu o milagre de tornar a ministra Dilma menos antipática! Não usaria essa imagem, se tivesse aprendido elevar uma fração a uma potência, em Manaus, com a professora Mercedes Ponce de Leão, tão fofinha, ou com a nega Nathércia Menezes, tão altaneira.
 
Deixa ver se eu entendi direito: Marina não serve porque tem cara de fome. Dilma, porque mete mais medo que um exército de logaritmos, catetos, hipotenusas, senos e co-senos. Serra, todos nós sabemos, tem cara de vampiro. Sobra quem?
 
Se for para votar em quem tem cara de quem comeu (e gostou), vamos ressuscitar, então, Paulo Salim Maluf ou Collor de Mello, que exalam saúde por todos os dentes. Ou o Sarney, untuoso, com sua cara de ratazana bigoduda. Por que não chamar o José Roberto Arruda, dono de um apetite voraz e de cuecões multi-bolsos? Como diriam os franceses, "il péte de santé".
 
O banqueiro Daniel Dantas, bem escanhoado e já desalgemado, tem cara de quem se alimenta bem. Essa é a elite bem nutrida do Brasil...
 
Rita Lee não se enganou: Marina tem a cara de fome do Brasil, mas isso não é motivo para deixar de votar nela, porque essa é também a cara da resistência, da luta da inteligência contra a brutalidade, do milagre da sobrevivência, o que lhe dá autoridade e a credencia para o exercício de liderança em nosso país.
              
Marina Silva, a cara da fome? Esse é um argumento convincente para votar nela. Se eu tinha alguma dúvida, Rita Lee me convenceu definitivamente.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Encontro com Deus

Pastoreio de Pastores: ops!

Sou pastor. E estudei por cinco anos para o ser, contudo antes fiz um acompanhamento vocacional por outros tres anos. Após minha formatura fui acompanhado mais dois anos num período probatório, a fim de ser presbítero da Igreja Metodista. No total foram dez anos de acompanhamento institucional, dos quais somente três foram acompanhados pastoralmente. Esse acompanhamento se deu na igreja local, quando era ainda uma ovelha, no aprisco do Senhor, próximo a casa de minha mãe, próximo da minha família e amigos, na cidade de Goiânia.

Após alguns anos de ministério atuando sozinho como provedor de “respostas”, “conselhos” e “estratégias" para a cura do outro, do próximo me deparo com essa temática que muito mexe comigo tendo em vista que: Quem cuida de mim? Que cuidado eu tenho tido para com meus amigos e colegas? A resposta é muito simples: minha contribuição tem sido pequena, modesta e paliativa em frente aos desafios do homem pós-moderno, em época que as pessoas muito produzem e pouco fazem em favor de si próprias.

Tenho sido dia após dia conflitado em minha prática por pessoas que desistiram de buscar um tratamento em momentos de crises profundas. Acreditar que sou uma espécie de “super homem”, “inquebrável”... isso é um enorme metira. Não sou nada além de um homem que um dia resolveu aceitar um chamado de Deus. Contudo no exercício do chamado somos fadados a acertos e fracassos. Pensando num texto que li compartilho com vocês o que achei interessante. Leia a abaixo:

Aprendendo a Aguardar ou Esperar Biblicamente
Fonte: www.pastoreiodepastores.org.br

Existem três momentos na vida de um filho de Deus: o da derrota, da vitória e de sofrimento e fraqueza. O da derrota e descrito no final de Romanos 7 e o da vitória em Romanos 8. Poucas pessoas entendem que Romanos 8.17-34 descrevem o terceiro momento. Por não entender que existe este terceiro momento, acabam achando-se derrotados quando não estão vivendo na plena vitória do início de Romanos 8.

À luz disso, deixe o Espírito Santo ministrar para você pela tradução de Eugene Peterson (The Message) de Romanos 8.22-29:

“Em tudo ao nosso redor observamos uma criação grávida. Os tempos difíceis de dor no mundo inteiro são simples dores de parto. Mas não estão apenas ao nosso redor, também estão dentro de nós. O Espírito de Deus está acordando-nos por dentro. Também sentimos as dores de parto. Estes corpos doentes e esgotados almejam libertação total. Por isso o aguardar não nos diminui, igual como o tempo de espera não diminui uma mãe grávida. Somos engrandecidos na espera. Nós, claro, não enxergamos o que nos engrandece. Mas o mais que aguardamos, o maior que nos tornamos e o mais alegre que se torna nosso suspenso.

Ao mesmo tempo, o momento que nos cansamos em esperar, o Espírito de Deus está a nosso lado nos ajudando. Se não sabemos como ou o que orar, não importa. Ele ora dentro de nós e para nós, tornando nossos suspiros sem palavras e gemidos angustiantes em orações. Ele nos conhece bem melhor que nos conhecemos a nós mesmos, entende nossa condição grávida e nos mantém perante Deus. Por isso podemos ser tão confiantes que cada detalhe em nossas vidas de amor por Deus está sendo trabalhado para algo bom.

Deus soube o que fazia desde o ponto de partida inicial. Ele decidiu deste o começo formar as vidas dos que o amam na mesma linha que a vida de seu Filho. O Filho se ergue como primeiro na linha da humanidade que ele restaurou. Vemos a forma original e prevista de nossas vidas nele.

No início deste ano, Deus me falou que 2005 seria o ano de aguardar nele. Eu reclamei que já fiz isso, começando desde fevereiro, 2004, quando Débora, minha esposa, foi morar nos EUA para acompanhar Karis no aguardo de um transplante intestinal. [1] Ele me falou que não aguardei biblicamente e queria me ensinar o que era isso. Está me mostrando quatro características de aguardar ou esperar biblicamente, baseado em Romanos 8.22-29.

Primeiro, precisamos reconhecer que estamos grávidos, precisamos enxergar o que foi concebido, o que Deus depositou, o que ele claramente começou antes do momento de sofrimento e fraqueza. Vejo, por exemplo, que Deus depositou na Karis a característica de ser uma pessoa ponte: entre América Latina e América do Norte; entre evangélicos e católicos, estudando na Notre Dame, a melhor universidade católica dos EUA; entre extrovertidos e introvertidos (ela é extrovertida, mas a maior parte de sua vida teve que ser introvertida por falta de saúde e força); entre os Pentecostais que acreditam que Deus sempre cura e não enxergam uma teologia de sofrimento e nossos irmãos mais históricos que tem dificuldade em ver que Deus cura hoje. Ver o que Deus depositou nela me permite aguardar biblicamente que ele complete a boa obra que começou!

Segundo, precisamos reconhecer o que Deus está formando em nós – algo bem além do que foi depositado ou concebido inicialmente. Karis foi para Notre Dame estudar no ramo da medicina, querendo ser uma pediatra missionária na África. Aprendeu francês ao ponto de fazer seu tempo devocional em francês. Mas depois de um ano, a Deã pediu que ela mudasse de especialização por falta de força física, pelas constantes internações e por terminar cada semestre com matérias incompletas. O ramo da medicina era rigoroso demais para ela. Então ela pesquisou as 130 outras especializações da universidade, mas não encontrou nada que correspondesse a ela. Pediu para criar sua própria especialização. Cinco pessoas na história de Notre Dame fizeram isso. Hoje, depois de defender sua tese diante de um painel de professores, a especialização dela é composta por uma combinação de relações internacionais, paz e reconciliação, e jornalismo. Ela está aprendendo a língua árabe porque sente que os maiores problemas mundiais em sua geração estão relacionados ao povo muçulmano. Deus manteve o que depositou nela, e o reformulou através desse período de aguardar nele.

Em terceiro lugar, reconhecer que Deus está formando A NÓS – geralmente através de dor ou sofrimento. Uma cena no filme “A Volta do Rei” de J.R. Tolkien, a última na Série “O Senhor dos Anéis” mostra os fragmentos da espada que ganhou a batalha contra o Maligno em outra época. Eles são guardados num lugar bonito e sagrado dentro de um vidro sobre uma almofada aveludada. A próxima cena mostra a espada completa, brilhando em vermelho pelo calor do fogo e sendo temperada através de dois grandes homens que a martelam com toda sua força. Quem conhece o processo sabe que depois a espada é mergulhada em água gelada antes de ser colocada de novo na fornalha e martelada para temperá-la de novo – repetidas vezes. Mas uma vez forjada, se torna uma arma terrível nas mãos do Rei. Aguardar biblicamente quer dizer saber que Karis está sendo forjada. O sofrimento atual dela não se compara com a glória que será revelada. Pode ser que essa glória inclua o fato dela ganhar a habilidade de sofrer para Jesus em outras circunstâncias futuras.

Em quarto e último lugar, precisamos visualizar o resultado do que Deus está fazendo, enxergando o dia de “nascimento”, não conhecendo os detalhes do que nascerá, mas tendo uma visão crescente. Nossos olhos espirituais podem ver que Jesus está sendo formado em Karis e ela está se tornando mais e mais como ele. Ele é a mostra de nosso futuro se permitimos que ele cumpra seus propósitos através dos tempos de sofrimento e fraqueza.

Que Deus nos libere de uma teologia que apenas vê vitória ou derrota. Que nos libere de nossa tendência de fugir do sofrimento, não percebendo que ele tem propósitos eternos para cumprir nele. Que abra nossos olhos para uma visão de que ele nos chama a aguardar biblicamente nele. Isso não significa aguardar passivamente, meramente jogar tudo sobre ele e “descansar”. A maioria das pessoas passa por sofrimento sem ganhar os seus frutos. O povo de Deus que sofreu no deserto por 40 anos após a saída de Egito ganhou novos olhos e novas habilidades. Entrou no deserto com a mentalidade de dependência, medo e escravidão. Saiu como guerreiro que sabia depender de Deus e fazia todos os povos de Canaã tremerem. Seu chamado de conquistar a terra prometida, não mudou; mas eles mudaram! Aprenderam as lições de aguardar biblicamente, crescendo nas quatro características acima. Que essas verdades possam crescer em cada um de nós, nos tornando guerreiros que revelam o caráter e glória do Rei.

Os sonhos de Deus fazem parte de quem sou. Somente por ele e nEle posso crescer a cada dia, mas não posso tampar o sol com a peneira, preciso também olhar em minha volta, para meus amigos e amigas de vocação, não somente para aqueles que entendemos estarem “mal”, os que já sofrem” mas também para os que ainda não chegarem ao ponto da ebulição. Talvez seja eu amanhã enfrentar essa crise ministerial, familiar, financeira, pessoal, e me pergunto: que irei buscar apoio, auxílio, e forças? Realmente prefiro acompanhar e ser acompanhar, compartilhar e ouvir, impor minhas mãos mas também ter as mãos de pastores/as impostas sobre mim, mãos compromissadas com a continuidade e cura, e não preocupadas com reservas e outras coisas mesmos importantes que nós mesmos.

Um grande abraço, carinhosamente...